sexta-feira, 30 de outubro de 2026
quinta-feira, 29 de outubro de 2026
«Vindimas em Espindo - A terra, o vinho e a memória»
«Há dias que passam e há dias que ficam. Talvez porque nos fazem recordar quem fomos, quem esteve connosco e aquilo que, apesar das mudanças, ainda conseguimos preservar.
Os dias 10 e 11 de setembro de 2026 foram, em Espindo, dias desses. Foram dias de vindima. Depois de meses de sol, chuva, cuidados e incertezas, as vinhas entregaram os seus frutos. Chegou o momento de colher.
É assim todos os anos. Depois do inverno e da poda, chegam os primeiros rebentos, as flores e os pequenos cachos. Durante o verão, a uva cresce, amadurece e ganha cor, açúcar e sabor. E então chega setembro. É como se a própria vinha dissesse: está na hora.
A vindima nunca foi apenas trabalho agrícola. Foi, e continua a ser, uma forma de estar juntos. Antigamente, familiares, vizinhos e amigos enchiam as vinhas. Cortavam-se os cachos, enchiam-se os cestos, transportava-se a uva e, entre o esforço, havia sempre lugar para uma conversa, uma brincadeira, uma gargalhada ou uma cantiga. O trabalho era duro, mas ninguém estava sozinho.
Hoje há máquinas onde antes havia dezenas de braços. O trabalho tornou-se mais fácil, mas não mudou o essencial: a espera, a esperança, o respeito pela terra e a certeza de que um bom vinho começa muito antes de chegar à mesa.
Depois da vindima, a uva seguia para o lagar. Homens de calças arregaçadas e pés descalços entravam nele e esmagavam os cachos. O mosto nascia debaixo dos seus pés, entre vozes, risos e conversas. Era trabalho, mas também celebração. A uva começava então a transformar-se em vinho.
Hoje os gestos são outros, mas o significado permanece. Por detrás de cada garrafa, caneca ou copo de vinho continuam meses de trabalho: a poda, o cuidado, a espera e o receio da geada, da doença, da chuva fora de tempo ou do calor excessivo. E, finalmente, a alegria de colher aquilo que se ajudou a nascer.
Em Espindo, tudo isto tem um significado especial. São cada vez menos os que permanecem ligados à agricultura e muitas vinhas desapareceram. As que resistem são, por isso, preciosas — não apenas pelo vinho que produzem, mas pela memória que guardam. Cada vinha é um pedaço da nossa história; cada videira traz consigo a memória de quem a plantou, podou e nela trabalhou.
É também por isso que, na Casa do Brás, através do Plano de Atividades da AJA Espindo, continuamos a acreditar que vale a pena manter viva esta tradição.
Nos dias 10 e 11 de setembro, voltámos a vindimar. Cortaram-se os cachos, transportou-se a uva, encheu-se o dornão e repetiram-se gestos antigos. Gestos simples, mas carregados de significado.
Aos resistentes de tantos anos, que continuam a aparecer quando chega a hora da vindima, fica o nosso profundo agradecimento. E aos novos vindimadores, o nosso reconhecimento por terem vindo juntar-se a nós e ajudado a manter viva uma tradição que não queremos perder.
Porque uma tradição não vive apenas nos livros, nas fotografias ou nas histórias dos mais velhos. Vive quando alguém decide repeti-la: quando corta o primeiro cacho, transporta a uva, abre as portas do lagar ou ensina aos mais novos aquilo que aprendeu dos que vieram antes. É assim que uma tradição atravessa gerações.
A vindima terminou, mas o trabalho continua. Agora é a natureza que assume o comando. O mosto irá fermentar, ganhar cor, aroma e sabor. Depois virá a trasfega e, com ela, novamente o tempo da espera. E, quando chegar São Martinho, chegará também a hora de provar o vinho novo.
Nessa altura, talvez possamos levantar uma caneca e perceber que mais um ciclo se cumpriu: a vinha deu o fruto; o homem deu o trabalho; e o tempo fará o vinho.
Talvez seja essa a maior lição da vindima: as coisas verdadeiramente importantes não acontecem depressa. É preciso plantar, cuidar, esperar e, quando chegar o momento certo, saber colher.
Enquanto houver alguém disposto a cuidar de uma vinha, haverá esperança. Enquanto houver alguém disposto a abrir as portas de um lagar, haverá memória. E enquanto houver vinho feito em Espindo, haverá também um pouco da nossa terra, da nossa história e daqueles que vieram antes de nós à mesa.
Por isso, uma vindima nunca é apenas uma vindima.
É a terra a falar, é a memória a permanecer, é uma tradição que se recusa a morrer. E é também uma forma simples de dizer: ainda estamos aqui.
Guilherme Gonçalves (Casa do Brás – Espindo)
2026-10-13»
«OS IDOSOS E O MINI-LAR DE RUIVÃES»
«Na sociedade primitiva, os velhos eram objeto de veneração, os jovens a eles recorriam em busca dos seus conselhos, eram respeitados e lhes confiavam negócios. Em geral, as sociedades da antiguidade consideravam o estado de velhice dignificante e adotavam como sábio aquele que atingia aquela etapa. Passou a ser importante o papel de ancião, época terminal da vida, e aos que nela ingressavam era reservado um papel de intensa atenção nos destinos dos grupos sociais e na tomada de decisões importantes, ao ponto de, no século XVIII, o idoso ser tido como património e não como encargo.
A China proporcionava aos velhos uma condição singularmente privilegiada. A qualificação e a responsabilidade das pessoas aumentavam com os anos e no cume encontravam-se os idosos. Essa posição elevada refletia-se na família, sendo que toda a casa devia obediência ao homem mais idoso e a sua autoridade não diminuía com a idade.
Contudo, com a evolução e progressão em andamento e, fruto da revolução industrial, ocorre uma inversão de valores, em vez da sabedoria, passa-se a julgar o homem pela sua capacidade de produção – muito mais próximo do jovem – e, ao idoso começa a restar um lugar de exclusão e decadência.
Este fatalismo é-nos dado a conhecer a toda a hora e a todo o momento. Por um lado, a sociedade de consumo que remeteu para um plano muito distante as questões morais e sociais, com a destruição das instituições que garantiam a ordem social, nomeadamente a família. Por outro lado, o aumento da longevidade que, embora proporcione mais anos de vida, não garante melhores anos de vida, prolongando mais anos de inatividade, com a consequente incapacidade de resposta familiar e estatal, permitindo condições para o abandono, o isolamento, os maus-tratos, o sofrimento físico, psíquico e moral, etc, etc.., resultando na construção desenfreada de lares, agora designados ERPIs (Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas).
Serve este introito para centrar a atenção no Mini-Lar de Ruivães, onde me desloco com alguma regularidade para visitar a D. Senhorinha Amélia ali residente, minha sogra, que há dias celebrou 97 anos de idade. Uma SENHORA, filha da mística ponte da Mizarela que, do alto da sua provecta idade nos dá muitas alegrias pela sua boa disposição, com discurso rico e coerente, dando-nos verdadeiras lições de vida, com exemplos de tempos de dificuldade passados e por si testemunhados.
Um dos exemplos recentes e que fixei, resultou de uma observação feita sobre a sala daquele lar onde os idosos normalmente descansam e que serviu para comentar com ela e outra utente, esta sua companheira no dia a dia, que há ali utentes que dado o seu estado de dependência, necessitam efetivamente de muita atenção, obrigando a esforços redobrados das funcionárias. Eis que ela logo reage, de forma que considerei muita oportuna “… ainda bem que agora há estas coisas (lares) para dar alguma condição de vida a quem não pode. Noutro tempo, era ver quem já mal podia agarrado ao rabo da vaca mais mansa e ser puxado pelos caminhos e montes para andar…”. Era esta a realidade de outros tempos, não muito longínquos, no mundo rural da região, onde os recursos eram parcos e os mais fracos não tinham amparo, sendo obrigados a labutar até ao esgotamento total.
Aquela estrutura, com a designação de Centro Social Interparoquial de Campos, Ruivães e Salamonde, com as valências de Serviço de Domicilio (Idosos) e Estrutura Residencial para Pessoas Idosas (Lar de Idosos e Residência), resultou da ideia original da criação da estrutura de apoio social pelo Monsenhor Alberto Gonçalves, cuja conclusão física do edifício do lar ocorreu no ano de 1998. E a história não se apaga, há que reconhecer que foi a visão social e o prestígio que o Monsenhor Alberto detinha enquanto Arcipreste de Vieira do Minho que validaram e impulsionaram o arranque jurídico e moral da instituição, que tem desempenhado o seu papel no apoio aos nossos idosos, tendo proporcionado as condições possíveis à satisfação das necessidades dos mesmos de forma digna e responsável; condições que resultam do empenho da gerência e funcionárias que se ocupam de os higienizar, alimentar, amparar nas suas deslocações internas, na toma da medicação e interação nas diversas atividades lúdicas.
Não se trata de uma estrutura que se possa considerar de excelência, até porque se encontra implantada num território de baixos recursos, onde acolhe e acompanha idosos com baixas reformas, mas é uma mais-valia inquestionável que desempenha um papel preponderante na freguesia e região, permitindo que com o seu funcionamento se encontrem respostas sociais para aqueles que delas necessitam e assim permitir que a reta final da vida não seja tão angustiante como aquela do tempo do “rabo da vaca”.
Infelizmente os nossos idosos já não representam a posição elevada na família como outrora, mas continuam a ser o único repositório humano de vivências e experiências que dão continuidade às gerações e nos dão verdadeiras lições de vida, porque foram eles que trouxeram o mundo até estes dias; que desbravaram montes, domesticaram animais; construíram muros; abriram caminhos; lavraram a terra; criaram riqueza e, por fim, nos proporcionaram condições para agora os sentarmos num cadeirão de um lar qualquer e assim vivermos a vida sem ouvir as suas lamúrias.
Contudo, o acolhimento no Mini-Lar de Ruivães não será uma fatalidade, mas uma necessidade resultante dos dias que correm. E também não será o abandono e o isolamento daqueles que para ali vão. E muito menos para aqueles que, de forma voluntária e consciente manifestam a sua vontade em ali passarem o resto dos seus dias, como aconteceu com a D. Senhorinha, de quem se espera, por mais alguns anos, o seu sorriso, a simpatia, a lucidez e a visão da vida através dos seus lindos olhos azuis.
2026-10-14»
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